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terça-feira, 15 de maio de 2012

Tao: a grande rebelião

Os mestres taoístas falam apenas do "Caminho"; Tao significa o Caminho, e eles nunca falam sobre o objetivo. Eles dizem: "O objetivo virá por si mesmo; você não precisa se preocupar com ele".

Se você conhece o Caminho, conhece o objetivo, pois o objetivo não está no final do Caminho, mas ao longo de todo o Caminho; a cada momento e a cada passo ele está presente.



Não que você atinja o objetivo quando o Caminho termina; se você estiver no Caminho, estará no objetivo a todo momento, onde quer que você esteja.

Estar no Caminho é estar no objetivo. Por isso os mestres taoístas não falam sobre o objetivo, não falam sobre Deus, não falam sobre moksha, nirvana, iluminação... não, absolutamente. A mensagem deles é muito simples: você precisa encontrar o Caminho.

As coisas ficam um pouco mais complicadas porque eles dizem: O Caminho não tem mapa, não está cartografado, não é tal que você possa seguir alguém e encontrá-lo. O Caminho não é como uma auto-estrada; é mais como um pássaro voando no céu, sem deixar rastro... O pássaro voou, mas nenhum rastro foi deixado e ninguém pode segui-lo.

Assim, o Caminho é um percurso inexplorado; ele é um percurso, mas inexplorado; ele não está pronto, não está disponível, você não pode simplesmente decidir caminhar por ele; você terá de encontrá-lo.

E você terá de encontrá-lo à sua própria maneira, pois nenhuma outra servirá para você. Buda caminhou, Lao Tzu caminhou, Jesus caminhou, mas esses caminhos não irão ajudá-lo, porque você não é Jesus, não é Lao Tzu, não é Buda. Você é você, um indivíduo único. Somente ao caminhar, somente ao viver a sua vida, você encontrará o Caminho. Isso é algo de grande valor.

É por isso que o Taoísmo não é uma religião organizada, e nem pode ser. Ele é uma religiosidade orgânica, mas não uma religião organizada.

Você pode ser um taoísta se simplesmente viver sua vida autêntica e espontaneamente, se tiver coragem de entrar no desconhecido por conta própria, sozinho, sem depender de ninguém, sem seguir ninguém, mas simplesmente penetrando na noite escura sem saber se chegará a algum lugar ou se ficará perdido.

Se você tiver coragem, esse risco existe; é arriscado, é uma aventura.

O Cristianismo, o Hinduísmo e o Islamismo são grandes rodovias: você não precisa arriscar nada, simplesmente segue a multidão. Com o Tao, você precisa seguir sozinho, precisa estar sozinho.

O Tao respeita o indivíduo e não a sociedade; respeita o único e não a multidão; respeita a liberdade e não a conformidade. O Tao não tem tradição; ele é uma rebelião, e a maior rebelião possível.



Osho, em "Tao: Sua História e Seus Ensinamentos"

domingo, 8 de abril de 2012

Não espere pelo Epitáfio

Há dezenas de mitos e histórias com a finalidade de exaltar a preferência do caminho do meio; o que não se deve esquecer é que esse caminho pode também ser o da mediocridade

Há uma frase que é sempre proferida, quase beirando um chavão, quando, em determinadas circunstâncias, se deseja cobrar de alguém uma postura direta, uma posição explícita ou, até, uma atitude clara: Deus vomitará os mornos! Essa ameaça vale também quando se quer amedrontar aqueles ou aquelas que seguem pela vida afora sem nunca se aproximar minimamente dos extremos, ficando sempre no ansiado ou proclamado como seguro “caminho do meio”, evitando-se, assim, qualquer risco de transbordamento ou ruptura da prudência.

Deus vomitará os mornos! Está lá no Apocalipse (último livro da Bíblia dos cristãos), capítulo 3, versículos 15 e 16: “Conheço tuas obras: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, porque és morno, nem frio nem quente, estou para vomitar-te de minha boca”.

Essa admoestação colide frontalmente com um dos pilares da moral greco-romana desde a Antiguidade e que impregna com intensidade a moral do cotidiano: a virtude está no meio. Tal princípio, nascido como teoria completa no século 4º a.C., a partir da obra “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles, anuncia, três séculos após, um ideal de moderação e uma referência de tranquilidade expressos por um relato da mitologia trazido nas “Metamorfoses”, do poeta latino Ovídio. Conta ele que Hélios (o Sol) tivera um filho, Faêton, com Climene, mas não acolheu a criança; quando Faêton cresceu, foi em busca do reconhecimento do pai, que, tendo-o aceito, ofereceu como presente qualquer coisa que o rapaz desejasse. O pedido do jovem foi poder guiar o carro de Hélios, que antes o advertiu com a obrigação de manter-se equidistante do céu e da terra, dizendo-lhe que “pelo meio irás com a máxima segurança”. Como o filho não o atendeu, desequilibrando e desviando o Sol, Zeus interveio e liquidou Faêton com um raio.
Ora, há dezenas de mitos, fábulas e histórias com a finalidade de exaltar a exclusividade e preferência do caminho do meio; o que não se deve esquecer é que esse caminho pode também ser o da mediocridade. Em nome da sobriedade, da prudência e do comedimento, o máximo que se obtém em muitas situações é a mornidão mediana, regrada e constantemente refreada.

                 

Nesse sentido, para não ser morno, é preciso ser radical. Cuidado! Em nosso vocabulário usual é feita uma oportunista confusão entre radical e sectário. Radical é aquele, como lembra a origem etimológica, que se firma nas raízes, isto é, que não tem convicções superficiais, meramente epidérmicas; radical é alguém que procura solidez nas posturas e decisões tomadas, não repousando na indefinição dissimulada e nas certezas medíocres. Por sua vez, o sectário é o que é parcial, intransigente, faccioso, ou seja, aquele que não é capaz de romper com seus próprios contornos e dirigir o olhar para outras possibilidades.

É preciso ter limites, mas estará o limite exatamente no meio? Não é necessário ir até os extremos, mas é essencial não ficar restrito ao confortável e letárgico centro. Muitas vezes, o meio pode ficar anódino, inodoro, insípido e incolor. Alguns desses desejos de romper fronteiras mornas só aparecem nos epitáfios, sempre em forma nostálgica e lamentadora de um “eu devia ter…”. Para além da mitologia grega, não é por acaso que outros Titãs têm sido tão festejados quando cantam de forma deliciosa e perturbadora (e muitos com eles): “Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer; devia ter arriscado mais e até errado mais, ter feito o que eu queria fazer…”.
A sabedoria para equilibrar essas inquietações pode ser encontrada na reflexão feita no século 5º a.C. pelo filósofo chinês Confúcio: “Eu sei por que motivo o meio-termo não é seguido: o homem inteligente ultrapassa-o, o imbecil fica aquém”.

Radicalidade é uma virtude; o vício está na superficialidade.

Mário Sérgio Cortella

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Tao como caminho do meio

Faça o que tu queres há de ser o todo da lei!

O Caminho do Meio, por ser a busca do equilíbrio, o Sol e a Lua; o claro e o escuro; o correr dos rios e o vôo dos pássaros. Movimento que tudo engloba, nada separa. Linguagem da natureza, tão esquecida pelo homem. Harmonia para o desequilíbrio, Yin e Yang, Céu e Terra. A vivência do aqui e agora sem reações, pleno de observações, complementação Homem e Universo.
O sentir é mais importante que o saber. O vivenciar em lugar do relatar. A participação consciente da nossa realidade interna com a externa. Uma proposição ao Homem, de ser um todo corpo, mente, razão e emoção, na eterna dança das mutações em busca da Unidade e da Totalidade do Ser.
Não sei quando aconteceu, mas o homem separou-se da Natureza e, quando tal se deu, ele se enfraqueceu, pois cortou o contato direto com a sua maior força e suprimento de energia que é a Natureza. Se nos aliarmos ao Sol, ao Vento, às Águas e à Terra, seremos fortes e imbatíveis como seres integrantes e participantes deste contexto maravilhoso que é o Universo. Somos um Todo pertencente ao Todo. Somos Unos na Diversificação. Parte de cada gota de orvalho caindo da folha no despertar da manhã. Parte da relva que veste as colinas verdejantes que nos rodeiam. Parte das águas dos rios e dos mares. Sim, somos fortes e não sabemos usar a nossa força porque não estamos centrados em nós mesmos. 
A tecnologia, o intelecto, a razão de valores tão fora da realidade e que nos é imposta, nos afasta do conhecimento real do nosso Ser e amortece o potencial natural de cada um. O caminho do meio é um convite a fluir no Ying Yang, balancear os dois lados da moeda que temos de viver. Vamos conscientizar nossa atuação no cotidiano, no dia a dia, procurando uma forma de equilibrar nossa realidade interna com a que somos obrigados a viver. Vamos nos integrar às coisas simples da Vida, unir nosso potencial individual ao potencial universal. Somos capazes disso. Usemos nosso mental para projeções positivas equilibrando nosso corpo e mente, assim, estaremos mais aptos para vencer as os percalços do caminhar. Valorizando o simples que nos é acessível, como um dia de sol, uma noite estrelada, a beleza de uma flor e o riso de uma criança, estaremos captando o bom e o positivo, o real da nossa existência.

No fluir do Tao, estaremos seguindo o curso da Mãe Natureza. Não podemos eliminar a violência, a desagregação, a desarmonia, o ódio e o medo, como não podemos eliminar a noite e exigir a permanência do dia. Mas podemos nos trabalhar interiormente para melhor receber esses impactos sem deixar que eles nos derrubem.
Sejamos como o junco que durante um vendaval se curva até o chão, no máximo de flexibilidade para não se quebrar e, ao passar da tormenta, se posta ereto, apontando para o céu e dançando ao sol. Sejamos flexíveis com o mundo, com os nossos semelhantes e conosco mesmos. Só assim conseguiremos trilhar o Caminho do Meio.
Assim como o tigre, antes de se lançar à presa, se posta numa aparente imobilidade: no seu interior ele está pleno de concentração, atenção, força e objetividade, para atingir o seu alvo. Assim é o Tao. Na aparente não ação, há um mundo de movimentação, planejamento, expectativa e elaboração.
Sejamos como o água, maleável e fluídica que toma a forma do lugar que percorre, sem oferecer resistência. Vamos aprender a olhar e ver. Tocar e sentir. Sentir mais do que saber. Valorizar o existir. O simples existir e respirar. Andar e falar. Vamos nos centrar no nosso Ser e descobrir a infinita possibilidade de ação que temos.
O homem de hoje não diferencia muito do homem de 500 anos atrás. Mudou a roupagem, vestiu uma fantasia de sábio tecnológico e até atingiu a Lua, mas no fundo do seu ser as suas carências são as mesmas desde que o homem é homem. Ele precisa de Amor, de compreensão, de calor humano e naturalidade de expressão. De espaço, de ar, de tempo. De comunicar e ser comunicado. De criar e atuar dentro das leis da Natureza.

Em plena era da comunicação, o homem nunca esteve tão só e isolado. Inseguro e atemorizado. Pressionado e condicionado. Aprisionado nas malhas da grande rede tecnológica. Vamos usar o intelecto, sim, mas aliado ao intuir. Vamos aprender e saber para melhor sentir e executar. Botar as coisas nos seus devidos lugares, na ordem de grandeza que merecem por sua natureza. E assim fazendo, será mais fácil o fluir do Homem na eterna corrente da evolução.
Estamos no limiar de uma nova era que surge e irrompe como o sol da manhã. Outros cânticos, outras falas. Sons internos que ecoarão por todo o mundo. Um mundo melhor, de mais conscientização, novas conceituações e valores. Uma descoberta do potencial total de cada um. Autoconhecimento e autogestão. Auto-equilíbrio. Auto-confiança. Esta é a proposição do caminho do meio.
Somos seres totais e vivemos uma parcialidade. Por que não viver a totalidade? Os fundamentos do Tao nos mostram que na simplicidade está a sabedoria.

Feliz Ano do Dragão em 2012!!

Amor é a lei, Amor sob vontade.